Manaus - Belém do Pará
Quinta Feira - no navio
Sem novidades, a mesma e velha monotonia de bordo. Algumas paradas no caminho e no meio da noite
o navio chegou a Santarém. Atracamos e ai fiquei sabendo que só partiria na
manhã seguinte. Que saco. Mais enrolação.
Sexta Feira.
7h começaram a descarregar a carga do navio. Uma confusão
só. Entra por um lado e sai por outro e no meio disso tudo, chegando mais
passageiros. Fomos sair de Santarém só ao meio dia. Entrou mais um monte de
gente, entre estes uma turma de ET’s estrangeiros, dois caras e duas carinhas.
Só sei que as carinhas são bem bonitinhas. No decorrer do dia tentarei algum
contato imediato de terceiro grau.
Os ET’s se instalaram bem atrás de mim. Fico tentando
desesperadamente entender as conversas, mas não tem jeito. A tarde fiz o
primeiro contato imediato. Os tanços saíram de suas redes e foram para cima do
navio(estamos no último andar de baixo) e deixaram as pochetes jogadas por cima
da bagagem, bem na mão de algum larápio mais ligeirinho. Fui obrigado a ir lá
chamá-los e explicar que bagagens pequenas devem sempre ficar com a gente ou ao
alcance da vista. Já aproveitei e alertei que nas paradas de porto tem que se
grudar na suas coisas e não vacilar. Pois estão bem do ladinho de uma das entradas
e saída do navio e quando este aporta entra todo tipo de carregadores e
vendedores ambulantes por ali. É muito fácil passarem a mão em uma mochila e
sair andando. Gato escaldado né. Eu agora durmo agarrado, literalmente nas
minhas duas bolsas menores. A pochete na cintura, com os fechos para dentro e a
mala de tanque onde guardo a câmera, no meio das pernas e a alça enroscada
nestas. É um saco, mas depois de quarta. To todo cagado.
Bom, nessa vez, não da para tirar muitas fotos. O barco na
descida do rio, a favor da correnteza, vem sempre pelo meio do mesmo, longe da
margem, ao contrario da ida para Manaus, quando em função de ir contra a
corrente do rio, ele ia sempre margeando um dos lados, onde a correnteza é
menor. Tenho feito mais fotos de cenas
do cotidiano do navio e dos locais de parada, mas nada muito interessante. O
grande ponto culminante de todos os dias é sempre no fim de tarde, assistir ao
por do sol. Olha que é páreo duro com o por do sol do Guaiba em Porto Alegre,
que está entre os mais lindos do mundo. Hoje me estressei feio com um caboclo
aqui no barco. A porra do barco está super lotado e em cada porto entra mais
gente,. Era para ser parelha esa troca, uns entram e uns saem, mas numa dessas
entrou muuuuuito mais do que saiu e a porra lotou feio. Quando vi tinha uma
rede colocada entre a minha e a do vizinho, que já estavam coladas, só que esse
malandro colocou a dele mais alta, literalmente por cima dos dois. Fiquei só no
bico, esperando o cara aparecer. Fiquei até 2h da madrugada escrevendo e nada
do maldito. Veio um várias vezes, rondou, olhou e nada de deitar. Como não
sabia se era ele, fiquei na minha. Comecei a achar que o malandro estava
esperando que eu levantasse para ele chegar e deitar e quando eu chegasse já
estaria lá. Não deu outra, duas horas fui no banheiro e quando voltei tava o
bonito lá. Meti a boca, empurrei, mas o diabo tava tão bêbado que deu uma
resmungada e ficou. Eu, óbviamente não dormi mais, já estava a fim de passar a
faca nas cordas da rede dele, mas ia ser muita confusão e afinal estou de
férias né, mas que cheguei a meter a mão na faca , meti.
Passei as duas horas seguintes me virando toda hora na rede
para não deixar o infeliz dormir também. Cada virada dava um cotovelaço ou
joelhaço no cabra. Acerta hora, achei uma posição que meu joelho ficou fincado
nas paletas do diabo. Atormentei o bicho. Duas horas depois novo porto. Algumas
pessoas desceram e outras muitas entraram, mesma rotina. Como alguém vagou um
lugar adiante, o cara que estava na rede do outro lado do mala, meu antigo
visinho, foi rápido e se mudou pra esse lugar vago. Daí peguei a rede do mala e
empurrei bem pro lado e deu para ficar normal. O cara nem chega mais perto da
rede quando estou aqui. De manhã, peguei umas maçãs que tinha comprado e fiquei
bem quietinho, na minha rede, tirando a casca e comendo ao pedaços com minha
faca. Só pra mostrar que tinha. Depois do ocorrido em Manaus, toda tripulação
acha que sou polícia, e deixa assim que tá bom. Nessas bandas impõe respeito e
alem do mais procuro sempre conversar com o Marquinho que já ta meu amigo.
Gente boa e é dono do barco. O povo todo respeita ele. Hoje a noite, o
Marquinho me chamou de lado e me apresentou uns caras. Adivinha só. Tudo Polícia.
Hehehe To bem escorado. Um delegado,
enorme o cara e gente muito boa e outros dois que pelo que entendi, são da PM. Isso foi no finzinho da tarde, quando
estávamos todos no dek superior do navio e eu tirava fotos com o por do sol.
Ficamos ali conversando um pouco. Eu explicando que não sou polícia, e sim
perícia e não somos mais vinculados, mas o delegado nem se importou, tratou
como se fosse tudo colega. É que lá no Pará, a perícia ainda pertence à
polícia. Inclusive ele estava indo à capital, Pará, levando várias armas e uma
boa quantidade de drogas apreendidas em operações policiais, para serem
submetidas à perícia. Bem legal o delegado e ainda por cima me deu várias dicas
de Chapada das Mesas que é meu próximo destino.
Sábado
No Sábado , foi o primeiro dia em que chegamos perto da
margem do rio Amazonas. O navio passou a navegar por braços de rio bem
estreitos e dava para ver as duas margens bem perto.
É nessa fase da viagem que chegam as famosas canoinhas com
crianças, que vem remando em direção ao navio e o povo a bordo joga saquinhos
com iguarias tipo: Balas, biscoitos, refrigerante, etc. É o povo pobre das
margens que tem uma chance de apreciar essas coisas.
Depois de várias horas passando por essas pessoas, chegou em
um ponto que duas canoinhas dessas, cheias de crianças se engatou no navio com
umas cordas com ganchos nas pontas e subiram a bordo para vender seus produtos:
Camarão em saquinhos, já cozidos prontos para comer e vidros com Palmito em
conserva. O povo a bordo compra tudo e ainda da mais um monte de coisas para
eles. Ficaram horas no navio e eu ali pensando: como iam voltar se suas canoas
só tem remos? Perguntei pro Marquinho e ele me explicou que eles voltam de
carona em outro barco que venha no sentido contrário, normalmente nas balsas(que
levam carga), que tem toda hora passando uma.
Essa gurizada faz a festa no navio. Escalam de um andar para outro,
sempre vendendo e coletando donativos. Eu não tinha dado nada pra ninguém, mas
numa dessas, eu estava lá no último andar, tirando minhas fotos e uma das
meninas que acabava de ganhar um pacote de biscoito, viu uma canoinha se aproximar
com outras crianças e ninguém jogou nada. Imediatamente ela correu para a traseira
do navio e jogou na água os biscoitos que tinha ganho e deu um super grito para
as crianças irem pegar. Cara! Fiquei realmente emocionado. Ela é paupérrima, não
tem nada, e quando consegue um pouquinho abre mão pelos amigos. Genial. Na hora,
fui no bar do navio e comprei outros dois pacotes do mesmo biscoito para ela.
Acho que foi os 6 pilas mais bem gastos da viagem.
Alguns minutos depois começou a fechar o tempo e em meia
hora estávamos em baixo de uma tormenta. Aproveitei para descer e jantar o PF
do navio, depois fui tomar um banho e dormir. Amanhã de manhã devemos chegar em
Belém.
Cheguei em Belém do Pará as 9:30 da manhã. Tenho que esperar
a maré subir para tirar a moto do navio. O previsto era maré cheia as 13h mas,
já conseguimos tirar por volta de 11:30
Beleza, o Diego, membro do Brazil Rider’s já estava lá me
esperando e me conduziu até o Hostel onde vou ficar hospedado. Adivinha só, os
gringos do navio estão todos aqui. Já começo a me entender mais com eles, tem
um alemão, um australiano e as meninas são, uma francesa e uma belga.
Olha só que peludinha a moçoila. Cosa mais sexi. Que tal hem? Apliquem um zoom.
Adeus rio Amazonas
O Hostel,
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