Tasso Fragoso – Lizarda
Domingo - Tasso Fragoso – Lizarda (dia de atoleiro na areia)
De manhã, desmontei a barraca e fui tomar meu café da manhã. Voltei, arrumei o resto das coisas na moto e me mandei para a estrada.
Tenho que deixar aqui uma ressalva, a menos que queira entrar no Jalapão pela porta dos fundos como eu tentei, essa rota não tem nada a ver, mas a estrada, entre Balsas e Alto Parnaiba, tem paisagens muuuuito bonitas de chapadas e escarpas rochosas fantásticas.
Cheguei em Alto Parnaiba pelas dez horas. Parei no posto para abastecer e encontrei um trilheiro da região que me disse que de jeito nenhum eu passaria com a moto pesada pelas trilhas que queria seguir em direção a São Félix. Disse que ele e outros amigos foram por ali uns dias antes, com motos de trilha bem leves e em alguns trechos de subida, só passaram com as motos rebocadas por cordas, com dois ou três puxando de cima e o piloto acelerando a moto. Bem que quando li sobre esse caminho, os caras que passaram ali, com um 4x4, já mencionaram trechos que tiveram que ancorar o carro nas árvores e subir com auxilio do guincho. Mas eu, sabe comé né, sempre querendo achar que com a XTzona ia tirar de letra. Acho até que se não tivesse passado pelo que passei e com a embreagem boa, ia teimar e tentar, mas com a embreagem com problemas, nem pensar. Sou louco mas não sou burro né.
Daí a outra opção era voltar ou tocar por Lizarda. Perguntei dessa estrada e ele disse, que eu ia sofrer com essa moto pesada, mas a estrada estava boa e com as últimas chuvas não devia ter muita areia solta. Que devia estar bem batida. HAHAHAHAHAHAHA... E lá fui eu....
Se aquela do barro foi roubada, essa agora foi.... nem tem como adjetivar.... me fú..., do primeiro ao quinto. Foram cento e oitenta e poucos km de puro sofrimento. Destes, pelo menos 100 só de areia fofa. Minha moto está pesando 240 kilos carregada, comigo em cima, são mais 100, então, 340 kilos num atoleiro de areia por 100 km é coisa prá louco suicida. Com o temperinho ainda de estar com a embreagem comprometida.
Deixa eu falar, para pilotar na areia com sucesso, exige-se uma certa técnica e algum arrojo do piloto. Muita confiança em si e na máquina. Eu, não tinha, a essas alturas, nenhuma dessas qualidades. Com a moto hiper pesada, a técnica quase se anula e isso leva a confiança pro brejo. Resultado? Me tornei um dos maiores latifundiários do Maranhão. A família Sarnei que se cuide comigo. Comprei terrenos ao longo de cento e poucos kms dessa estrada maldita. E foram váááááários. Logo no primeiro trecho já tomei o primeiro tombo, mas ai to fresquinho, já to com a moto bem mais leve que na Amazônia, então fui ligeirinho em levantá-la. Segui viagem. Daqui a pouco vai de novo. Levanta rápido. De pois desse segundo, a estrada volta a ser de terra batida, sem areia e ai a XT encara como asfalto. Só vai. Eu é que todo cagado, já não andava mais muito depressa. Mantinha entre 45/55 Km/h. Tranquilo. Mas ai o sol e o calor começam a pegar feio. Mais alguns atoleiros e já ressabiado vou só na primeirinha sapateando com os pés no chão e segurando a moto com uma força descomunal, mas chão, não mais. E assim foram os primeiros 70 km até a localidade de Morrinhos. Ali chegando, já super exausto, domingão ao meio dia, tudo fechado e eu morrendo de sede e só com uma garrafinha de água já morna. Perguntei numa casa e a senhora me disse que podia bater na casa em frente que ela vendia bebidas. Dito e feito. Fui lá, bati e apareceu uma senhora e abriu a porta e me vendeu uma coca de um litro. Ali não vendem água mineral, ninguém compra. Tomei quase toda aquela coca e fiquei um bom tempo sentado na sombra descansando. Até a mulher viu o quanto eu estava esgotado. Nesse meio tempo, chegou um rapaz numa moto pequena, acho que 150cc, com um senhor na garupa, o pai dele. Conversamos e ele me disse que ainda tinha muito atoleiro pela frente, mas que dava pra tocar. Me instruiu sobre um desvio, que ele entraria para a direita e eu devia seguir reto. Beleza. Entendi.
Terminamos a prosa e saímos juntos, só que ele anda naquela motinho, com uma facilidade que eu não conseguia acompanhar. Logo ele sumiu na minha frente. Alguns kms a frente, vi um desvio e deu para ver que ele foi pela esquerda. Logicamente eu me toquei pela direita. Um tremendo atoleiro. Tomei dois tombos nesse trecho e ai já quase morri para levantar a moto.
Nessa, to lá eu nos meus 15km por hora, rabaneando a moto pra tudo que é lado naquela areia fofa e ouço uma buzina atrás. Pensei que fosse outro motoqueiro querendo passar e então parei para não correr o risco de derrubar o coitado. De repente para do meu lado o meu amigo lá de traz. Veio me dizer que peguei o caminho errado. Putz!! Quase morri de desespero na hora. Já tinha andado uns 2 ou 3 km e voltar tudo naquela areia desgraçada. Era a morte. Mas fazer o que né. Virei e comecei a andar e o cara se mandou na frente e ficou de colocar uns galhos quebrados no desvio certo para eu saber. Logo, logo, o perdi de vista de novo. É impressionante a facilidade com que eles andam com essas motinhos pequenas nessas estradas. Além de motos muuuuuuuuuito mais leves, são super hábeis. É o quintal deles. Andam ali todo dia.
Nessa volta cai mais duas vezes, e na segunda fiquei com o pé preso em baixo da moto. Ai fiquei meio preocupado. Estava deitado no chão, de costas para a moto, o que complica muito e exausto. Consegui me ajoelhar, tentei mexer a moto e nada. Esperei um ouço, tomei fôlego e tentei de novo. Dessa vez, mal e mal mexi um ou dois centímetros, mas foi o suficiente, graças a areia fofa, para puxar o pé e sair fora. Vi que não estava vazando gasolina e então descansei um pouco antes de tentar levantar a moto de novo. Depois de duas tentativas, consegui. Botei a bixa de pé e fiquei ali encostado, em uma micro sombra, descansando mais um pouco e já começando a me preocupar bastante. Nesse tempo, olho na estrada e lá vem meu salvador de novo. Viu que demorei e veio ver se estava bem. Eita cabra dos bons esse. Começamos novamente a retornar e ele perguntou se eu me importava de pegar um carreirinho. Na hora não entendi direito, mas daí entendi que era uma espécie de trilhasinha pelo meio da mata que atalhava e dava direto na estrada certa. Eu disse que tudo bem desde que passasse na largura dos alforges laterais. E lá fomos nós. Loguinho chegamos a estrada certa e estava durinha nessa parte. Toquei atrás dele e logo encontramos o pai dele, que tinha ficado esperando e seguimos. Mais alguns kms e a estrada começou a piorar de novo. Ele se sumiu na frente mas logo cheguei à bifurcação onde ele seguiria seu caminho e eu o meu. Parei, perguntei o nome dele, e tiramos uma foto juntos. Eu, meu salvador, o Altair e seu pai. Nesse momento ele me disse que também seguiria para Lizarda mais tarde e que o irmão dele tem uma pousada por lá. Ótimo eu disse, então já vou dormir lá hoje, pois mesmo que chegasse cedo, estaria muito cansado para seguir adiante. Ele disse que deixaria o pai em casa e depois seguiria para Lizarda. Eu disse que ele passaria por mim logo adiante e ele duvidou. Hehehe
Não deu outra, foi virar a primeira curva e o inferno de areia continuou. Foram kilometros e mais kilometros, só em primeira e olhe lá, uma segunda de vez em quando. Mais uns 3 ou 4 tombos, até que num desses eu simplesmente não consegui mais levantar a moto. Deixei ali deitada e fiquei olhando, parado de pé, numa dessas micro sombras até que tivesse alguma idéia ou passasse alguém. Alguns minutos e veio no sentido contrario outro rapaz, também em moto pequena e me ajudou a levantar a moto. Conversa vai, conversa vem, e descobri que era o próprio irmão do Altair, o Juca, dono da pousada em Lizarda. Conversamos por alguns minutinhos e já vinha chegando o Altair. A família salvadora. O Juca estava indo na casa do pai e seguiu para lá e eu continuei com o Altair para Lizarda. Esse cara foi simplesmente um anjo da guarda. Ele me acompanhou, escoltando e dando apoio até a cidade. Foram dezenas de kilometros ainda até a fronteira com o Tocantins, só de areia. Tomei mais uns 4 ou 5 tombos e se não fosse ele ali para ajudar a levantar a moto eu estaria lá até agora. Foi um super apoio. O cara realmente me salvou de uma encrenca das mais cabeludas. Sozinho eu jamais conseguiria. A certo ponto os tombos já eram mais por pura falta de força em se manter na moto. Qualquer coisinha eu já caía.
Desde o começo da minha viagem eu dizia, aos que questionavam se não era perigoso eu ter problemas com a moto ou com a segurança, viajando sozinho e coisa e tal, que meu maior medo não era a moto ou os perigos do caminho, e sim eu não ter condição física para suportar algumas das dificuldades. Bom essa foi a prova de que a condição física pode te derrubar de vez.
Vou tentar descrever melhor como é pilotar nessas estradas. A areia e fofa, como nas dunas da praia. A roda afunda uns 10 ou 15 cm, mas traciona bem. O pneu ajudou demais nessa hora. Um dos grandes problemas é que se formam trilhos das rodas dos carros que passam, e a moto é jogada de um lado pro outro dentro destes. O excesso de peso na traseira que eu pensei que ajudaria a aliviar a frente é um horror. Quando a frente enterrava na areia ou sequer dava uma travadinha, a traseira muito pesada se jogava para os lados, muito ajudada pelo peso dos alforges nas laterais. Isso quando devido a profundidade das valetas, os alforges não vinham arrastando nas laterais destas e travando e desequilibrando a moto. Some-se a tudo isso a embreagem a meio pau. Caos total. Como tem que ficar colocando os pés no chão toda hora, e o chão nas laterais da valeta é lá em cima, tem-se que ficar com as pernas em posição encolhida, mais ou menos como se estivesse andando na moto com as pernas no ar e tentando a todo tempo encostar os joelhos nos cotovelos. A dor e o cansaço na virilha são de matar. Depois tem a força com os braços para segurar os trancos do guidão na areia todo tempo. E por último a super hiper força, essa sim a mais esgotante de todas, que se tem que fazer para levantar a moto quando cai. Eu levantei seus 240 kg mais de 10 vezes num calor de rachar o crânio, até que esgotei. Os braços tremiam e eu nem conseguia mais fechar a mão sem força. Ai é que o Altair foi fundamental. E tenho certeza que dava para perceber isso em minha fisionomia.
Bem, depois de seis horas e pouco, chegamos em Lizarda, na pousada do Juca. Me instalei num quarto com ar condicionado, tomei um banho e não consegui fazer mais nada. Fui tentar passar um óleo na corrente da moto e nem conseguia força para apertar o tubo plástico para sair o óleo. Desisti. Pensei em lavar a roupa suja, mas desisti também. A esposa do Juca me conseguiu uma moça que lavou tudo por 12 reais. Foi bom, pois voltei a ver minhas meias brancas depois de muito tempo. Sai para comer algo a noite. Fui comer um pastel na praça da cidade que, aliás, é uma barraquinha que pertence ao Juca e esposa. Deu para ver que são muito ativos, além da pousada e da barraca de pastéis, tem também a lan house junto a pousada e o Juca ainda lida com instalações elétricas e refrigeração. É uma família multi tarefas. Com certeza esses tem sucesso garantido na vida, pois não tem medo de trabalho.
lá que outro dia arrumoerradoAs fotos deste dia coloquei errado no post de ontem. Olhem lá que outro dia arrumo.
kkkkkk
ResponderExcluirMano "véio", to aqui dando risada (confortavelmente instalado em uma poltrona) imaginando um "nanico" como tu, estirado nas areias (coisa braba de verdade) e sendo socorrido pelos "Altaires e Jucas da vida". Incrível, mas como tem gente boa andando pelo mundo e sendo nossos "anjos da guarda" nestas situações. Entendo perfeitamente os teus percalços. E rio mais ainda pela certeza que tenho: tu nem bem vai chegar de volta em casa e vai estar "doidão" para sair novamente e fazer tudo de novo.
Que sigas sempre - ainda que por "maus caminhos" - sempre na presença de pessoas do bem.
Grande aBRaço, hermano.